É a podridão, meu velho (19)

21:18 h.

O Sol ainda tenta pegar no sono

Nesses tempos de horário de verão

(tomou um rivotril, o Sol, e espera seus efeitos).

Já se abate

E faz ninho sobre mim

O cansaço e o desnorteio

De como se três ou quatro horas da madrugada fossem.


E pensar que eu,

Que hoje só atendo

Só respondo

Só me ponho em movimento

Mediante ao toque do clarim do rádio-relógio-despertador

(nunca sintonizei única estação nele),

Até há não muito tempo,

Até há bem dizer

Ontem,

Só era atraído à rua

Pela luz da lua portátil e de 1.000 watts do Comissário Gordon.


E pensar que eu,

Até há não muito tempo

Até há bem dizer

Ontem,

Só ia me deitar

Na hora em que hoje acordo.

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Thor, o Vermelho

Não bastasse ser o Demiurgo Supremo do Universo Marvel, Stan Lee incorporou personagens de outras mitologias ao seu mundo das maravilhas. Thor é o mais famoso deles.

O Thor de Stan Lee, contudo, guarda poucas semelhanças com o Thor nórdico, o ruivo, o vermelho.

Walt Disney também importou para o seu mundo inúmeros personagens de outros autores, marcadamente de antigos contos de fadas. Contos que, nas suas versões originais, nada tinham de singelos e de confortadores; antes pelo contrário, eram terríveis, assustadores, feitos mesmo com o propósito não de agradar às crianças, sim de apavorá-las, de deixá-las petrificadas de medo, para que fossem dormir e dessem um pouco de sossego aos pais.  Só a exemplos, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela. No conto original da Chapeuzinho Vermelho, de Perrault, o Lobo mata a avó, mas não a devora. Quando Chapeuzinho chega em casa, o Lobo fantasiado oferece a carne da avó para a menina comer, que come toda a carne e ainda toma uma taça de vinho, na verdade, o sangue da avó. Na hora de fazer naninha, Chapeuzinho Vermelho se deita nua com o Lobo na cama, que, não sendo de ferro, devora a menina. Em Cinderela, dos Irmãos Grimm, doidas para desencalhar e tirar as teias de aranha, as irmãs más da Cinderela cortam uma os dedos do pé e outra o calcanhar, na tentativa de calçar o sapatinho de cristal e abiscoitar a rola do princípe encantado. O princípe é avisado do embuste e acaba por não desposar nenhuma delas. Ainda, as duas irmãs tem os olhos furados por aqueles alegres, cândidos e dóceis passarinhos que ajudam Cinderela no filme da Disney.

Walt Disney limpou os contos originais de seus elementos tétricos, de suas sombras, de seus macabros, os higienizou e os tornou palatáveis, mesmo que insossos, ao gosto do americano médio das décadas de 1950, 1960, adaptou-os ao “sonho americano”, ao American Way of Life; talvez tenha iniciado, sem intenção, o politicamente correto.

O mesmo aconteceu com o Thor ao ser transposto para os quadrinhos. Stan Lee submeteu o deus do Trovão a um processo de disneyficação. Foi como se o Thor, ao atravessar o portal entre as dimensões da mitologia nórdica e do Universo Marvel, tivesse sido limpo e despojado de seus atributos mais rudes, rústicos e brutos, de suas qualidades mais másculas.

Stan Lee dysneyficou o Thor. O Thor é a Cinderela do Stan Lee.

O Thor de Stan Lee é alto, elegante e esguio, tem o físico de quem malha em academia, está sempre com a barba bem feitinha, tem olhos azuis, e ostenta longas, brilhantes e sedosas madeixas loiras de foto de caixa de tintura da Loreal. Ou seja, o Thor de Stan Lee é o irmão gêmeo do Rodrigo Hilbert. Pããããta que o pariu!!! O Thor nórdico tem modos e compleição física abrutalhados, não tem barriga tanquinho, tem é de tanque de guerra, é massudo, tem barba desgrenhada e mal cuidada, não tem físico de quem puxa ( e leva ) ferro se admirando num espelho, tem físico de remador, de gladiador romano.

Também educado, gentil e erudito, o Thor de Stan Lee; só trata as mulheres por milady e os homens por milorde, só fala em segunda pessoa, é tu para lá, é vós para cá. O Thor nórdico não tem nada de gentilezas, de finos tratos e de ilustrações, é cria de ambientes hostis e sangrentos, onde os fracos não tem vez, se pedir “por favor”, leva uma machadada na testa, se disser “obrigado e com licença”, lhe comem o cu; tem linguajar de marinheiro, de zonão de cais de porto.

O Thor de Stan Lee tem um martelo mágico com o qual invoca raios e tempestades para lançar contra seus oponentes, e que também lhe serve como propulsor para alçar voo. O Thor nórdico também tem um martelo com o qual é capaz de invocar raios e tempestades, e este é o único ponto em comum entre os dois, ou o ponto quase em comum. O martelo do Thor nórdico não se presta só à guerra. Com ele, o filho dileto de Odin pode celebrar casamentos e batizados, pode abençoar a terra e garantir boa colheita, pode acalmar as tormentas e garantir boa pesca e navegação. Só não sei se é capaz de curar viking broxa. Além disso, o martelo do Thor nórdico não lhe confere o poder de voo, para o que Thor se vale de uma biga puxada por dois bodes voadores, Tanngrisnir e Tanngnjóstr.

O Thor nórdico nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma batalha viking, de uma pilhagem a terras bárbaras, de um confronto com borrascas, serpentes marinhas, trolls e gigantes de gelo. E de que vai, depois, descansar e relaxar numa taverna. Vai tomar canecões e mais canecões de mulso (a cerveja lá deles), canecões confeccionados em ossos de baleias. Vai comer, com as mãos, meia dúzia de gordurosos javalis que ele mesmo abateu. Vai arrotar e peidar alto. Vai dançar com as putas até o nascer do dia. O Thor de Stan Lee nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma sessão de crossfit, ou de uma aula de zumba. E de que vai, depois, descansar e relaxar num restaurante japonês. Vai comer um sushi e um rolinho primavera e tomar uma saquerita de kiwi.

Como diria o personagem Severino, do imortal Paulo Silvino, “mas isso é uma bichona!!!!!!!!!!!”.

Algumas representações artísticas do verdadeiro Thor, o Vermelho.

Todo castigo pra biscate é pouco (3)

Ei-lo de novo. Lupicínio Rodrigues, o maior anti-corno do Brasil. 

O anti-corno é o sujeito que, feito o corno tradicional, leva chifres, assume a galha e esfola à carne viva os cotovelos no balcão sujo e rançoso de um bar. Mas que, diferente do primeiro, não perdoa a biscate. Não a acolhe de volta, não lhe dá abrigo nem guarida, quando ela, na maior cara de pau, cansada de guerra, toda estropiada, bate de novo à porta do lar que desonrou.

Ou, como no caso da canção “Cadeira Vazia”, até concede asilo, pousada e repasto à pérfida, mas não por frangalhos de uma esperança de que ela possa se emendar (a esperança do corno é a última que morre; a do anti-corno nem nidifica). Seria, então, por dó, por compaixão, por memória dos bons tempos que tiveram juntos, ou, deus me livre, por caritoso espírito cristão?

Não. Para torturar a biscate lentamente. Para lhe impor humilhação. Para vingar o chifre na testa. 

Na letra, Lupicínio, a vestir a pele do bom samaritano, diz : “Eu não te darei carinho nem afeto/Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto/Pra te alimentar, podes comer meu pão”.

Bonzinho, o Lupicínio? Um corno clássico? Nada disso. Ele manterá a biscate sob seus cuidados, lhe dará um teto, lhe alimentará, mas apenas para que a biscate saiba que ele está a observar a ruína dela, a sua degradação, a sua vergonha; para vê-la definhar em culpa e agonizar em remordimento. Dará-lhe casa, comida e roupa lavada, mas negará, à biscate, carinho e afeto, ou seja, a privará do que lhe é mais caro e necessário : a rola, o famoso cacete. 

Biscate não liga de passar fome, de não tomar banho, de viver na rua, mas tem crise de pânico e de abstinência se lhe falta a rola. Lupicínio sabia disso. Lupicínio é pura tortura chinesa para com a biscataiada.

Cadeira Vazia

(Lupicínio Rodrigues)

Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade 

O que desejas de mim.
Entra, pode entrar, a casa é tua

Já que cansastes de viver na rua
E teus sonhos chegaram ao fim.


Eu sofri demais quando partistes
Passei tantas horas tristes
Que nem quero lembrar este dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
Que em teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia.


Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu

E faz de conta que eu sou teu paizinho
Que tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu.


Voltastes, estás bem, estou contente
Só me encontrastes muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar pode ocupar meu teto
Pra te alimentar, pode comer meu pão.

Para ouvir “Cadeira Vazia” com o mestre Lupicínio, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

Lupicínio Rodrigues, de chapéu, que não é para proteger a moleira do sol nem do relento, não; é para esconder os chifres.

Autorretratos em 3×4

Escrevo.

Meus registros

São as migalhas de pão de João e Maria.

Espalhadas para pavimentar e sinalizar o caminho de volta,

Caminho que não terei mesmo fôlego

Para retornar quando chegar ao seu fim.

Meus escritos

São o novelo ofertado por Ariadne

Para que o herói não se embarace

Em sua saída do labirinto.

Inútil, no meu caso.

Uma vez que derrotado pelo Minotauro.

Escrevo porque gosto de me lembrar de mim

E tenho memória fraca.

Escrevo porque detesto fotografias

Mas gosto de autorretratos em 3×4.

A cachaça da ministra Damares

Não sei se a ministra Damares, titular da pasta do “importantíssimo” Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (quer dizer que a mulher é um ser celestial, que não faz parte, ou está além, da família e do gênero humano?) é chegada numa cachacinha, naquela que “matou o guarda”.

Provavelmente, não; uma vez que evangélica. Se bem que isso de evangélico não tomar bebida alcoólica, para mim, é puro mis-en-scène, pura fachada. É bem verdade que em suas festas e celebrações, quando é o evangélico quem está bancando o aniversário, o casamento etc, realmente não há birita, eles economizam uma boa grana em nome de Jesus; e depois dão tudo pro pastor. Mas já vi muito “irmão” entornar bem, quando a festa é patrocinada por outrem.

Mas tenho a certeza de que a ministra Damares, mesmo que não seja adepta de uma “branquinha”, recomendaria, veementemente, feito aquelas atrizes que fazem publicidade de produtos que, notadamente, não consomem, a cachaça abaixo, fabricada em Aracaju, Sergipe : a CURABICHA.

E farei aqui algo que os leitores do Marreta não estão acostumados a ver : elogiarei a inteligência do brasileiro. Alguns pensarão : ora, Azarão, por certo perdeste o senso. E eu vos direi, no entanto : meu elogio não é bem à inteligência em si do brasileiro, sim ao tipo da inteligência brazuca. Que, sabemos, não é das mais profundas, dedicadas e pujantes. Não é inteligência de cátedras acadêmicas, de, um dia, abiscoitar um Prêmio Nobel, a não ser, quem sabe?, a picaretagem do Nobel da Paz.

Porém, no quesito da irreverência, da galhofa e da gaiatice, não há quem nos bata. É a inteligência da sacada rápida, da tirada espirituosa, do chiste, feito a do gênio que batizou esta cachaça.

É inteligência de fôlego curto, de explosão, não de resistência : de curta distância. Numa Olimpíada de Inteligência, correríamos muito bem os 100 metros rasos e os 400 metros (sem barreiras); dos 800 metros em diante, só com revezamento. A maratona, jamais.

Não é inteligência de produzir novas tecnologias, de levar o homem a Marte, de curar o câncer e a paumolescência. É inteligência lenitiva e paliativa, de trazer uma fugaz alegria ao prosaico da vida. Feito o anão, a quem a única vingança possível é pisar na sombra do gigante.

Nossa inteligência é Phd em disciplinas e conteúdos não acadêmicos. Na modalidade apelidos, por exemplo. Como são os apelidos dos ingleses, dos estadunidenses? Thomas vira Tom; Franklin, Frank; Christopher, Chris; Robert, Bob; William, Bill; Antonhy, Tony; Nicholas, Nick… E a chatice prossegue infinitamente por essa linhas.

No Brasil, não. Por aqui, até tem destes apelidos diminutivos. Tem o Zé, o Tião, o Mané, mas a maioria das alcunhas tem inspiradíssima inspiração nos atributos físicos mal-acabados do sujeito. O narigudo vira “sequestrador de oxigênio”; o gordo, rolha de poça, pudim de banha, chupeta de elefante; o baixinho, gandula de pebolim, salva-vidas de aquário, jardineiro de bonsai, meia-foda, salário mínimo, piloto de hot wheels; o vesgo, um olho no peixe e outro no gato; o magro, tripa, vara de cutucar estrela, puro osso, chassi de grilo; o feio, espanta-bebê, manequim de funerária; o que usa óculos, quatro-olhos, Mr. Magoo, Steve Wonder.

Ou seja, o brasileiro inventou o bullying! O americano só o capitalizou – como sempre.

E na questão, então, da cachaça da Damares? Alguém suporia um escocês, ou um inglês, batizando um uísque de Virgin Pee (Xixi de Virgem)? Ou Cry on The Dick (Chora no Pau)? Um italiano a nomear uma grappa de Domare o Cornuto (Amansa Corno)? Um alemão dar a uma cerveja o nome de  Thread Brennen (Queima Rosca)? Ou um japonês rotular um saquê de 暖かいセーター (Esquenta Xereca)? Só no Brasil!

Além do brilhantismo do nome, o rótulo traz informações de grande sutileza sobre o produto, praticamente uma bula. Como uma cachaça, alguém poderia perguntar, seria capaz de curar uma bicha? A resposta está no rótulo : aguardente de cana mole. Mas é lógico. Se toda cana fosse mole, o boiola desistia da profissão.

E o melhor : a cachaça da ministra Damares vem, é claro, com o rótulo impresso em azul.

Pãããããããta que o pariu!!!!!